Proposta perigosa
Pelos cálculos do ministro da Justiça, 80 mil presos ganharão a liberdade em todo o país, caso aprovada sua proposta de afastar dos estabelecimentos prisionais os condenados sem grande periculosidade. É bom tomar cuidado. Criminosos de espécies variadas, sentenciados pela Justiça, estarão sentados no ônibus ou no metrô, ao nosso lado. Passearão pelas ruas, freqüentarão centros comerciais e tomarão sorvete perto de nossas crianças sem ter cumprido as penas referentes às suas delinqüências. Só não poderão estar de bermuda e sandálias de dedo, que revelariam a obrigatória tornozeleira capaz de monitorá-los à distância. De meias e calças compridas, serão cidadãos iguais a todos nós.
Fica para outro dia indagar quem ou que empresas serão beneficiadas com a venda ao poder público dessa parafernália eletrônica a exigir complicados centros de vigilância.
A discussão é mais profunda. Quantos, entre os 80 mil, reincidirão no crime, voltando a roubar, assaltar, falsificar, agredir e enganar pessoas honestas? Pelas estatísticas aferidas nas folgas de Natal, Ano Novo, Dia das Mães e similares, perto de 20%. Sem falar na capacidade dos próprios ou de familiares e amigos de transferirem as tornozeleiras para um poste ou um pé de mesa, deixando-os sem monitoramento. Mas mesmo que flagrados em botequins ou zonas duvidosas, de madrugada, o que fará a autoridade pública para enquadrá-los? Fica difícil imaginar a possibilidade do envio de choques elétricos ou admoestações através de chips ou ondas curtas.
A sugestão do ministro, com todo o respeito, bate de frente com o sentimento da sociedade. Vai estimular o crime e a violência. Afinal, mesmo parecendo de baixa periculosidade, foram presos, julgados e condenados. É claro que não deveriam estar misturados a autores de crimes hediondos ou a bandidos contumazes. Que se utilizem os recursos dessa custosa e perigosa aventura para construir pavilhões e até presídios destinados aos presos menos perigosos. Mas que sejam mantidos atrás das grades pelo tempo de sua condenação. Em nome dos que permanecem do lado de cá. Diz o mote popular que esperteza, quando é demais, come o esperto. Bondade em demasia também come o bondoso.

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