Lições de Negrão de Lima
A onda não chegou ao
ponto mais alto de inflexão. Episódios ainda acontecerão, em matéria de
confronto. Pode levar semanas até que arrefeça o movimento de protesto da
juventude. Por conta disso, seria imprescindível que as duas partes em conflito
estabelecessem certas regras, senão de convivência, ao menos de beligerância
contida.
Às autoridades cabe
assegurar as liberdades públicas e garantir a propriedade pública e
privada. Aos manifestantes, protestar sem depredações. Mantido esse mínimo de
compreensão, ganharão todos. Rompida a linha tênue do respeito, tanto faz se
por iniciativa de uns ou de outros, haverá que esperar o pior.
O experiente governador Negão de Lima, da Guanabara, nos idos de 1968, prenunciava “que o diabo é
se aparecer um cadáver”. E
apareceu, na pessoa do estudante Edison
Luís, assassinado a tiro no restaurante
do Calabouço por um agente policial. Depois foi realmente o diabo, culminando
com o Ato Institucional número 5, de triste memória.
O passado não se deu ao trabalho de passar para ser
esquecido. Como regra, experiências anteriores não nos dirão o que fazer, mas,
pelo contrário, o que evitar. Nesses entreveros
sempre surgem os radicais, os
empedernidos e os mal-intencionados. Pode ser um soldado que tem contas a ajustar com a Humanidade,
pode ser um jovem sem conhecer as razões
do protesto, empenhado apenas em devolver à sociedade organizada aquilo que
dela não recebeu. Tanto faz, pois o risco envolve tanto os manifestantes quanto as autoridades. Depois,
ninguém segura.
Os protestos configuram um estado de espírito que domina a
juventude, tão insatisfeita com os horizontes a ela oferecidos quanto disposta
à aventura de tornar-se participante de uma rebeldia de origem variada. A repressão
faz parte do espírito policial em todos os tempos e em todas as regiões. A mistura é explosiva caso
não prevaleçam o bom senso e a razão, de parte a parte.
Mais do que buscar culpados e responsáveis, importa tentar
limitar os episódios ainda inconclusos ao mínimo de prejuízo possível. Tirar a
tropa de choque das ruas e proibir o
uso de balas de borracha e gás lacrimogêneo sobre a multidão torna-se tão essencial quanto impedir a ação de
vândalos sem outros compromissos do que com sua própria animalidade. Estes são
facilmente identificáveis, assim como aqueles.
TRÊS SEGMENTOS AINDA NA SOMBRA
À medida em que as manifestações de rua se desenvolvem, seria bom prestar atenção em
três segmentos sociais ainda situados à
margem dos acontecimentos, mesmo tornando-se inevitável sua entrada em
cena. Como reagirão os políticos, a Igreja e as forças armadas, se o processo
de contestação continuar e até avolumar-se?
O Congresso não poderá deixar de tomar conhecimento dos
protestos, imaginando-se que cresçam. A
dúvida é saber qual a reação do PT,
tradicionalmente em favor de causas sociais e populares, mas agora amarrado à
condição de ser governo, mesmo sem governar os estados de São Paulo, Rio e
Minas, ainda que mantendo a prefeitura paulistana.
O poder federal será chamado a opinar, até mesmo a intervir,
sendo que os companheiros-governadores do Rio Grande do Sul e da Bahia já se
encontram frente a um desafio. As oposições hesitam em tirar proveito imediato
das passeatas e de seus excessos, até pela ironia de que detém o poder em São Paulo e Minas. Logo, caso o movimento não reflua, tornar-se-á o tema parlamentar
preferido de Suas Excelências.
A Igreja custa mais a reagir como um todo, mas diante de
convulsões sociais, não conseguirá eximir-se. Às vezes muda de lado, como a
partir de 1964, mas não demora muito a presença do que injustamente Nelson
Rodrigues batizava de “padres de passeata”, nas ruas das capitais.
Quanto às forças armadas, vale observar. Não detém mais o
controle das instituições, mantém-se à margem do processo político mas são
formadas de seres humanos, não por máquinas. Tudo o que se refere à quebra da
ordem provoca sentimentos de indignação nos militares, mesmo mantendo silêncio
absoluto. Como reagiriam se porventura convocados a opinar e até a intervir?
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