quinta-feira, 20 de junho de 2013

Lições de Negrão de Lima
 
 
A onda não chegou ao  ponto mais alto de inflexão. Episódios ainda acontecerão, em matéria de confronto. Pode levar semanas até que arrefeça o movimento de protesto da juventude. Por conta disso, seria imprescindível que as duas partes em conflito estabelecessem certas regras, senão de convivência, ao menos de beligerância contida.
Às autoridades cabe  assegurar as liberdades públicas e garantir a propriedade pública e privada. Aos manifestantes, protestar sem depredações. Mantido esse mínimo de compreensão, ganharão todos. Rompida a linha tênue do respeito, tanto faz se por iniciativa de uns ou de outros, haverá que esperar o pior.
O experiente governador Negão de Lima, da Guanabara,  nos idos de 1968, prenunciava “que o diabo é se aparecer um  cadáver”. E apareceu,  na pessoa do estudante Edison Luís, assassinado a tiro  no restaurante do Calabouço por um agente policial. Depois foi realmente o diabo, culminando com o Ato Institucional número 5, de triste memória.
O passado não se deu ao trabalho de passar para ser esquecido. Como regra, experiências anteriores não nos dirão o que fazer, mas, pelo contrário, o que evitar. Nesses entreveros  sempre  surgem os radicais, os empedernidos e os mal-intencionados. Pode ser um soldado  que tem contas a ajustar com a Humanidade, pode ser um jovem  sem conhecer as razões do protesto, empenhado apenas em devolver à sociedade organizada aquilo que dela não recebeu. Tanto faz, pois o risco envolve tanto os  manifestantes quanto as autoridades. Depois, ninguém segura.
Os protestos configuram um estado de espírito que domina a juventude, tão insatisfeita com os horizontes a ela oferecidos quanto disposta à aventura de tornar-se participante de uma rebeldia de origem variada.  A repressão  faz parte do espírito policial em todos os tempos e em  todas as regiões. A mistura é explosiva caso não prevaleçam o bom senso e a razão, de parte a parte.
Mais do que buscar culpados e responsáveis, importa tentar limitar os episódios ainda inconclusos ao mínimo de prejuízo possível. Tirar a tropa de choque das ruas e   proibir o uso de balas de borracha e gás lacrimogêneo sobre a multidão torna-se  tão essencial quanto impedir a ação de vândalos sem outros compromissos do que com sua própria animalidade. Estes são facilmente identificáveis, assim como aqueles.
TRÊS SEGMENTOS  AINDA NA SOMBRA
À medida em que as manifestações de rua  se desenvolvem, seria bom prestar atenção em três segmentos sociais ainda situados à  margem dos acontecimentos, mesmo tornando-se inevitável sua entrada em cena. Como reagirão os políticos, a Igreja e as forças armadas, se o processo de contestação continuar e até avolumar-se?
O Congresso não poderá deixar de tomar conhecimento dos protestos, imaginando-se que cresçam.   A dúvida é  saber qual a reação do PT, tradicionalmente em favor de causas sociais e populares, mas agora amarrado à condição de ser governo, mesmo sem governar os estados de São Paulo, Rio e Minas, ainda que mantendo a prefeitura paulistana.
O poder federal será chamado a opinar, até mesmo a intervir, sendo que os companheiros-governadores do Rio Grande do Sul e da Bahia já se encontram frente a um desafio. As oposições hesitam em tirar proveito imediato das passeatas e de seus excessos, até pela ironia de que detém o poder  em São Paulo e Minas. Logo,  caso o movimento  não reflua, tornar-se-á o tema parlamentar preferido de Suas Excelências.
A Igreja custa mais a reagir como um todo, mas diante de convulsões sociais, não conseguirá eximir-se. Às vezes muda de lado, como a partir de 1964, mas não demora muito a presença do que injustamente Nelson Rodrigues batizava de “padres de passeata”, nas ruas das capitais.
Quanto às forças armadas, vale observar. Não detém mais o controle das instituições, mantém-se à margem do processo político mas são formadas de seres humanos, não por máquinas. Tudo o que se refere à quebra da ordem provoca sentimentos de indignação nos militares, mesmo mantendo silêncio absoluto. Como reagiriam se porventura convocados a opinar e até a   intervir?

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