quinta-feira, 14 de junho de 2012

O PARAÍSO DA BANDIDAGEM


Perguntas que não foram feitas

Claro que não era o foco da CPI do Cachoeira, muito menos o palco para análise da performance administrativa do depoente, mas melhor ficariam deputados e senadores se ao invés de indagar sobre as relações de Agnelo Queiroz com Carlinhos Cachoeira, tivessem perguntado porque a capital do país virou um completo caos.
Ninguém duvidou da negativa do governador sobre qualquer relacionamento com o bicheiro, que também jamais viu, tratando-se todas as acusações contra ele de simples tertúlias políticas. Ele ficaria em dificuldades, porém, caso perguntado sobre a falência do sistema público de saúde, a falta de médicos e de vagas nos hospitais, a insegurança do cidadão que fica na rua depois do pôr do sol, os sucessivos seqüestros relâmpago, a balbúrdia verificada no trânsito, as ruas e avenidas esburacadas, as escolas onde chove dentro e o abandono das cidades satélites. E muita coisa a mais, demonstrando o desgoverno atual, não obstante o auto-elogio feito de corpo presente pelo governador.
Desafortunadamente, o objeto da CPI referia-se às atividades de Carlinhos Cachoeira, desta vez no Distrito Federal. Quem sabe no futuro venha a ser constituído outro grupo investigativo capaz de dar à sociedade as respostas que não recebe faz muito…
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O PARAÍSO DA BANDIDAGEM
Decisões da Justiça não se discutem. Cumprem-se. Carlinhos Cachoeira será posto em liberdade caso o pleno do Tribunal Regional Federal da Primeira Região confirme o voto do desembargador Fernando Tourinho Neto, anulando as escutas telefônicas da Operação Montecarlo, da Polícia Federal. O argumento do meretíssimo é de que o juiz federal encarregado do processo não justificou suficientemente o uso da escuta telefônica. Assim, concedeu habeas-corpus para a anulação das provas contra o bicheiro, suspendendo a ação penal.
Haverá que aguardar o pronunciamento da corte, mas, convenhamos, a libertação de Cachoeira vai contra tudo o que ainda resta de crédito das instituições democráticas. A anulação, se concedida por inteiro, colocará em risco o funcionamento da própria CPI e do inquérito contra o senador Demóstenes Torres no Conselho de Ética do Senado. Será o paraíso da bandidagem.
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SEM EXPLICAÇÃO
Do depoimento do governador de Goiás, Marconi Perilo, ficaram duas dúvidas: por que negou-se abrir mão de seu sigilo bancário, fiscal e telefônico? Tem algo a esconder?
Da mesma forma, se a operação de venda de sua mansão em Goiânia transcorreu sem participação de Carlinhos Cachoeira, por que o bicheiro morava no local, onde inclusive foi preso? Mera coincidência?
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A CASA DE PERILLO
Perillo depôs ontem na CPI e defendeu-se como pôde. O problema é a venda da casa. Diálogos interceptados pela Polícia Federal indicam que, além do valor registrado, o então assessor especial de Perillo, Lúcio Fiuza, recebeu R$ 600 mil em dinheiro no dia 12 de julho de 2011, véspera do registro do imóvel em cartório. Desse valor, R$ 100 mil seriam referentes a uma comissão. Fiuza negou, em nota, que tenha recebido o dinheiro.
Wladimir Garcez, apontado pela PF como braço direito de Cachoeira, ficou com outro R$ 1,4 milhão, segundo indicam as gravações telefônicas – dinheiro usado para quitar empréstimo obtido junto a Cláudio Abreu, ex-diretor da Delta Construções.
Na data desses pagamentos, realizados em dinheiro vivo pelo empresário Walter Paulo Santiago, comprador da casa, Perillo já tinha compensado em sua conta dois meses antes cheques no valor total de R$ 1,4 milhão. Esses cheques lhe foram entregues por Wladimir Garcez, emitidos por uma empresa ligada a Cachoeira e abastecida pela empreiteira Delta Construções.
Perillo afirma que a negociação foi feita originalmente com Wladimir Garcez, que, posteriormente, desistiu de comprar o imóvel por não ter como quitar os empréstimos com Cláudio Abreu. Só depois disso, segundo Garcez e Perillo, é que o empresário Walter Paulo Santiago foi procurado, para assumir a compra da casa.
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A CASA DE AGNELO
Agnelo Queiroz também depôs na CPI e até se ofereceu para quebrar seus sigilos. Perillo então seguiu o exemplo. Mesmo assim, os dois estão sob suspeita. O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, já requisitou ao Superior Tribunal de Justiça)a abertura de dois inquéritos para investigar Queiroz e um outro que terá como alvo Perillo.
A Polícia Federal apurou indícios de envolvimento de assessores de Agnelo com um grupo farmacêutico acusado de fraudes, formação de cartel e sonegação fiscal. Como se sabe, na época, Agnelo era diretor da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). O empresário Renato Alves da Silva, sócio da Hipolabor, tentou agilizar processos de interesse da empresa junto ao diretor-adjunto de Agnelo na Anvisa, Rafael de Aguiar Barbosa, hoje secretário de Saúde do governo brasiliense.
Reportagem de Lúcio Vaz e Breno Costa, no Estadão, mostra que escutas telefônicas feitas pela polícia revelam que Silva pediu a interferência do lobista Francisco Borges, ex-assessor de Agnelo na Câmara dos Deputados, para pressionar Barbosa. O deputado federal Fábio Ramalho (PV-MG) também foi acionado pelo grupo para marcar audiências na Anvisa.
Gurgel já está analisando os documentos e poderá pedir abertura de inquérito ao Superior Tribunal de Justiça, se avaliar que as provas são contundentes.
O procurador solicitou em 24 de abril o compartilhamento das provas obtidas pela Polícia Civil, o Ministério Público e a Receita Estadual de Minas. Isso porque o governador tem foto privilegiado e não poderia ser investigado em Minas.
Detalhe: esses fatos aconteceram justamente na época em que Agnelo Queiroz comprou uma mansão em Brasília – por coincidência, adquirida do irmão do dono de um laboratório beneficiado pela Anvisa;
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A CASA DE CABRAL
Em matéria de mansões e de corrupção, Perillo e Queiroz são aprendizes diante de Sergio Cabral, que está no ramo desde sua presidência na Assembleia Legislativa, segundo o dossiê do então governador Marcello Alencar, que à época era seu amigo e correligionário.
Mas, pelo visto, Cabral vai escapar incólume, sem jamais explicar como comprou o luxuoso apartamento no Leblon, a mansão em Mangaratiba e a poderosa lancha, que dizem ter vendido.
O pior de tudo isso é a certeza da impunidade. Os três governadores já perderam a honra, se é que algum dia a tiveram… Como são ainda jovens, seus futuros na política são nebulosos. A única certeza é a impunidade. Sequer serão cassados, porque os três usaram o dinheiro e poder para garantir sólidas maiorias nas respectivas Assembléias. E quem se importa com isso?
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EXAGEROS
Getúlio Vargas matou-se na manhã de 24 de agosto de 1954. Naquela mesma tarde um de seus algozes, Carlos Lacerda, deu entrevista às emissoras de rádio sugerindo a mudança do nome da tradicional Avenida Presidente Vargas para Avenida Castro Alves, no Rio. Uma infeliz proposta que não pegou. Até hoje prevalece a natureza das coisas, ou seja, a Avenida Presidente Vargas continua lá, porque só se apaga o passado nas ditaduras, mesmo quando da inversão de situações e partidos políticos no poder.
Filinto Muller foi figura malvista por ter chefiado a Polícia Federal nos tempos da ditadura do Estado Novo. Não escaparia de uma Comissão da Verdade caso criada naqueles idos. Depois virou senador, tendo apoiado o regime militar de 1964 com rara diligência. Morreu num desastre de avião, em Paris. Para homenageá-lo, bem ou mal, colegas senadores deram seu nome a uma das novas alas do Senado.
Agora querem trocar a designação da ala. Trata-se de outra bobagem. Se a moda pega, quem garante que o que for mudado hoje não será restabelecido amanhã?

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